segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O que somos segundo São João da Cruz

Quando se quer, lendo se aprende. Eu li e aprendi, ou melhor, estou começando a entender. Já que você está lendo é porque quer aprender. Ótimo. Depois me diga se já sabia e se valeu a pena. Vamos lá.
Conforme São João da Cruz o ser humano, você, eu, tem a alma estruturada em partes a saber: (conforme designado por ele).

A Parte Exterior ou Sentidos:
Esta parte é formada pelo Corpo com seus cinco sentidos: (visão - ouvido - paladar - olfato e tacto), a Vida Emocional com suas: (paixões - alegria - esperança - tristeza - medo), a Imaginação e a Inteligência usada somente para uso dos Sentidos.

A Parte "Interior ou Espiritual":
Nesta parte está a Vontade e o Amor. A Vontade aqui é a necessidade de Deus que é Amor. Está também aqui a Inteligência, independente dos Sentidos, chamada Sabedoria Espiritual e um Sentimento que nos possibilita sentir Segurança, Gostar da Vida Comunitária e alcançar um Estado de Paz.

"No Centro da Alma":
É acrescentado em nós, algo muito mais que o Exterior e o Interior, um terceiro elemento, no centro da alma onde todos nós somos a Imagem e Semelhança de Deus. Afirma que em nosso ser mora a Santíssima Trindade. Somos, assim, um Templo Vivo de Deus.
Isto significa que em cada um de nós existe um lugar São e Santo; um lugar que não está contaminado pelo pecado original e onde o demônio não tem acesso.

O homem, em função do pecado, não é capaz de viver a partir do seu centro tornando-se assim, um desconhecido para si mesmo mas, o centro da alma é Deus, é o que afirma São João da Cruz.
Não somos felizes porque não sabemos mais como viver pelo centro de nossas almas.
Quando São Paulo diz: "Não sou eu mais que vivo, mas é Cristo que vive em mim" Gal 2,20, ele está dizendo que o Cristo é o centro da vida dele. Ele está vivendo sob o comando do centro de sua alma, onde a Trindade faz morada, podemos concluir.
Somos, portanto, um ser composto de três partes, uma realidade complexa e em que as partes normalmente estão em desarmonia.

Como é a nossa vida vivida pelo "Exterior ou Sentidos":
Será uma vida totalmente dependente de tudo que é externo. Seria como olhar o lado de fora pela janela e o que vemos é tudo. Viver pelos sentidos é ter a inteligência preocupada e ocupada só em processar condições para atender somente a Vontade registrada pelos sentidos do corpo: por aquilo que vê, ouve, cheira, toca ou come. Vontade de comprar tudo que se vê, o que se ouve, o que se veste, o que se come.
Parece que tudo isso não é novidade pra gente. Sabemos bem esse jeito de viver.
A imaginação gera a paixão pela Vontade de ter e ser e assim vai se misturando alegrias, esperanças, tristezas, decepções, entusiasmo, desânimo e assim por diante.
Na escravidão da Vontade vamos atropelando e sendo atropelados e o pior, a mente passa a registrar desordens incontroláveis; perde-se a moral, partindo até para as aberrações.
O mundo nos permite presenciar aberrações humanas consequentes da vida nesta parte Exterior ou Sentidos.
Somos todos bem capacitados, plenas condições para permitir tais aberrações, proveniente do nosso modo de viver nessa área do Exterior ou Sentidos. Entendemos, então, porque o homem é corrupto, a homoxesualidade cada vez mais livre e declarada, o lesbianismo também. Já assistimos pela TV países que promovem casamento de homem com homem e mulher com mulher. Presenciamos também, pessoas de cultura, com destaque social, aprovarem tais práticas alegando ser uma libertação, uma cultura moderna.
Nesta mesma conduta vivencial, vemos pela TV, pessoas revoltadas, não aceitando tal situação, formando-se em grupos de extermínios, e assassinam-os cruelmente deixando para nós o sentir interior do julgamento nosso : gostei, é isso mesmo que eles merecem.
É nessa parte que compõe o ser humano que se desenvolve o vício do fumo, da bebida, das drogas e outros mais.

Nessa parte, Exterior ou Sentidos, o homem é também capaz de boas ações. Sente a necessidade de Deus.
Ele ouve as coisas boas que Deus realiza e isso desperta nele o querer Deus para ajuda-lo. Infelizmente, dado a sua capacidade de vivência, procura Deus com seu office-boy, aquele que deve realizar seus pedidos e súplicas. Entende Deus como se Deus devesse estar a sua disposição e livra-lo de seus males. Como diz um escritor: reduzimos Deus a uma vaca leiteira, só as tetas interessa.
Outros se apegam a santos ou santas se dizendo devotos deles afim de te-los como seus protetores; incapacitados que são de aceitar a verdade: "devoto é todo aquele que, porque admira, pede ajuda para imita-lo com sua vida".
Todo tipo de Vontade em tirar vantagens de tudo se desenvolve na mente do homem que só vive nesta sua parte Exterior ou Sentidos.

Como será nossa vida vivida pelo "Interior ou Espiritual": Primeira coisa será tomar pleno conhecimento da necessidade de se libertar do comando da vida pelo Exterior ou sentidos. Esta parte será de grande utilidade sob o controle, submisso ao Interior ou Espiritual. O nosso Interior ou Espiritual aceita perfeitamente ser submisso à Santíssima Trindade no Centro de sua alma.
Esta ação de Deus, dentro de nós, junto com o Interior ou Espiritual freiando e dando novo estilo de vida ao Exterior ou Sentidos, irá gerar o todo, a pessoa convertida, ou seja, cheia de Vontade de Deus e isto se chama "Evangelização".
São João da Cruz descreve ésta conversão, esta passagem do Esterior para o Interior como um grande encontro com Deus chamando-o de "Noite escura" ; onde muitas barreiras terão que serem derrubadas.
Esta nova postura de vida nos revela que tudo o que foi feito de bom, (quando no Ext
erior ou sentidos), o amor demonstrado a Deus e ao próximo, a caridade, os bons conselhos dados, tudo estava contaminado pelo amor próprio. Descobriremos que manipulamos as pessoas em lugar de servi-las, que construimos nosso reino pessoal em vez do Reino de Deus. Tudo foi vaidade. Já imaginou tal coisa em você? O livro descreve bem o desespero que isto nos leva.

São João da Cruz vê na vida de todos nós "Deus realizando suas virtudes: a Fé, a Esperança e o Amor (Caridade) como diretores espirituais que nos ajudam a não nos desviarmos da orientação para Deus.

São João da Cruz vê estas Virtudes relacionadas com as faculdades da nossa mente: a inteligência, a vontade e a memória. Cada uma das três “Virtudes Teologais” cuida de cada uma das três faculdades e orienta-as para Deus. Assim:
· Quem vai cuidar da Vontade é o AMOR.
· A memória vai ser assistida pela Esperança.
· A inteligência vai refugiar-se na Fé.


“O Amor irá curar nossa Vontade”.
A nossa”Vontade” acostumada a colocar nosso egoísmo a frente de tudo, sendo cativada e convencida pelo Amor, vai se tornando uma Vontade que passa a desejar Deus. A Vontade de Deus vai acontecendo. Deus que está dentro de cada um de nós sabe como realizar isto. Imperando verdadeira Vontade de Deus, vai enfraquecendo e desaparecendo a Vontade do Exterior ou Sentidos por qualquer coisa que não seja Deus.
Iremos gostar de tudo o que se gostava porém, gostaremos muito mais de Deus; nada se comparará ao nosso gostar a Deus. E quando estivermos de posse daquilo que gostamos o prazer será maior do que antes pois, um louvor espontâneo a Deus acontecerá.

“A Memória é assistida pela Esperança”.
A função da memória, sem a assistência da Esperança, é recordar o passado. É colocar nosso ser em nível de tudo o que foi registrado durante toda a nossa vida. Desde a gestação já se começa a se formar a memória com as informações que se vai recebendo. Assim fomos gerados e continuamos, no desenrolar da vida, a nos gerar em função do que somos e do ambiente em que vivemos.
Neste mundo onde Satanás reina, podemos imaginar a enorme quantidade de informações negativas que se acumulam em nossa mente. É assim que nos tornamos doentes, frágeis por termos nossa memória montada e formada por um processo de autodestruição. Na realidade a memória é um local de depósito, onde nossas imagens são guardadas e processadas. Tudo que pensamos e concluímos é guardado nessa memória.
Quando a memória é Assistida pela “Esperança”, ela inverte completamente o seu costumeiro jeito de ser. Em vez de só recordar e processar o passado ela passa a atuar em função do futuro. Ela passa a direcionar a Vontade só para o futuro; não quer mais viver só do passado. Só volta ao passado quando ele for fonte de informações que projete para o futuro.
“A Esperança” não permitirá que a memória tome posse da nossa vida fazendo-nos vítimas dos males que fomos obrigados a registrar. A Esperança, Vontade de Deus para o amanhã, começa a atuar, dando-nos a graça de viver hoje o amanhã que vai chegar. Graças ao dom da Esperança, nosso Interior ou Espiritual, é de tal forma enriquecido de Deus, possibilitando, assim, nosso Interior ou Espiritual se tornar diretor espiritual do nosso Exterior ou Sentidos. Será assim que nos tornamos outra pessoa, pois aquele que era do mundo passa agora a ser de Deus, do Reino, onde Jesus é o Senhor e Salvador e o Espírito Santo seu santificador. Tudo isto está dentro de nós para acontecer em nós. A Vontade de Deus em nossa vida passa a ser a prioridade do nosso viver. A Palavra de Deus passa a ser uma necessidade, alimento que nos leva a descobrir quem sou eu mais Deus e quem é Deus mais eu.

“A Fé passará a ser o refúgio da inteligência”.
A nossa inteligência é pequena demais para entender Deus. Deus é grande demais para ela. A inteligência acaba desistindo de buscar a compreensão de Deus. Não sabe como dialogar com Deus, não sabe ouvi-lo, tão pouco como falar. Por mais sublime que seja a imagem de Deus construída pela inteligência, ela estará longe do verdadeiro ser que é Deus.
Sem a Fé somos presas fáceis dos enganos que os homens ”bem intencionados” têm de criar suas próprias “convicções”com suas próprias doutrinas como querem entender a Palavra. A Fé vem ocupar o lugar da inteligência. A luz da Fé é tão forte que cega a inteligência. A Fé nos leva à Divina Sabedoria. A Fé nos leva a uma vida muito além dos conceitos. Libertos das limitações da inteligência, a Fé nos proporciona crer e usufruir daquilo que a inteligência não pode compreender: a Igreja, a Eucaristia, ao poder da oração, a adoração de Deus. Sem a Fé não existe conversão, tudo fica no plano da ilusão, do racional. É pela Fé que participamos verdadeiramente dos Sacramentos. A inteligência não pode entender mas, graças ao dom da Fé participamos da Vontade de Deus para conosco. Será pela Fé que seremos participantes fieis da Igreja, que pela sua autoridade Divina nos faz conscientes participantes de tudo que Cristo nos mandou fazer e ser. Não pode existir o dom da Fé sem ser membro ativo da Igreja. È pela Fé que nos curamos, passando da vida do “Exterior ou Sentidos” para a vida do “Interior ou Espiritual”. É pela Fé que acontecerão curas interiores pela nova vida da Esperança.

“Como passar de uma vida no nível dos “Sentidos” para uma vida no nível “Espiritual”.
Enquanto no nível dos Sentidos estiver tudo bem, se torna mais difícil uma procura mais profunda e você se acomoda. Quando se descobre que ai nada se encontra, (a graça iniciando sua ação), acontecerá a busca de algo mais profundo, a área onde a Trindade se encontra dentro de cada um de nós. Tal estado de alma já é a atração de Deus vencendo nossa resistência. Percebe-se claramente um convite para novas experiências de vida espiritual e um início de um desejar mais a Deus do que outra coisa. Uma confusão acontecerá em nossa mente, porém percebemos não querer voltar ao que era e ao mesmo tempo sentir-se em dificuldade de dar continuidade ao chamamento. O Espírito Santo, ao invés de animar, a primeira coisa que faz é convence-nos do pecado (Jo 16,8).

È nesta hora, nesta condição que a graça, Deus comandando nossa vida, acontecerá para que Deus e nós tenhamos sucesso. Podemos perceber estar deixando de ser uma pessoa superficial buscando mais profundidade nos fundamentos da Fé. Nesta caminhada, ao mesmo tempo em que a alma é elevada a Deus, ela se humilha em si mesma. (São experiências que São João da cruz revela). Percebemos enganos de condutas supostos espirituais que nos são reveladas como sendo condutas exclusivamente para satisfazer nosso ego. “Tudo vaidade”. Quanto mais Deus ilumina nossa alma, maior será o desespero diante de tantas correções necessárias. “Não vim trazer a paz mas, a espada” (Mt 10,34).

No princípio tudo parece uma loucura mas, aos poucos tal verdade vai se sedimentando e todo o nosso ser, corpo, alma e espírito vai encontrando um novo sentido na vida. Queremos ser o que sabemos e nesse estado o Espírito Santo encontra plenas condições para realizar em nós as curas do interior, liberando nossa mente para a Esperança. Com a mente aberta para Deus, nosso corpo vai encontrando sua alegria em ser um corpo de gestos que testemunham sua existência para Deus.
“Eu vivo mas, não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20). A frase é de São Paulo mas como vida todos os Apóstolos a tiveram. Percebemos que antes de Pentecostes, os Apóstolos não tinham condições de ser e fazer o que sabiam e queriam. Lembremos que Pentecostes é para quem sabe muito bem o que quer e o que tem para fazer, e por isso ele quer ser de Cristo. Cristo o centro da sua vida.
Então, só resta dizer: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. “VEM SENHOR JESUS”

São Paulo, 25 de Janeiro de 2008-01-25.
Mário Machado.